quarta-feira, 27 de novembro de 2019

O mal estar da nostalgia no pensamento psicanalítico

No texto “Mal estar da nostalgia” a autora, explica o significado da palavra nostalgia, que vem da origem grega, sendo nostos que quer dizer “voltar à casa” e algia que significa anseio. Ou seja a nostalgia é um sentimento que remete ao desejo por algo que não existe mais ou nunca existiu, o que pode resultar na pessoa um sofrimento causado pela fixação no passado e não apenas por um objeto ou pessoa, mas de uma época passada, fazendo uma transferência de um determinado período passado para o presente, futuro.
Ao relacionar a palavra nostalgia, na linha da psicanalise, o psicanalista Sigmund Freud através de sua obra Luto e Melancolia (1917), ele apresenta o sentimento nostálgico como princípio de prazer, que se expressa na propensão do organismo psíquico procurar o prazer, embora, às vezes, tenha que se abster da realidade. Nesse sentido a nostalgia surge como uma dificuldade enfrentada pelo sujeito de deixar para trás um momento que foi hipoteticamente prazeroso. Referindo-se ao investimento pulsional na linguagem freudiana, a imagem de uma época supervalorizada, no tempo em que as coisas pareciam “encaixar-se” melhor ao princípio do prazer, uma vez que o desejo do ser humano consiste na tentativa, não de encontrar o objeto, mas de reencontrá-lo. 

Homem x Natureza


A historiadora Ewa Domanska traz em sua obra “Para além do antropocentrismo” uma reflexão sobre mudanças observáveis no ser humano contemporâneo e a relação do mesmo com a natureza da qual ele faz parte. Um dos pontos que ela cita é o antropocentrismo que representa a espécie humana como centro do mundo, agindo contra a natureza de acordo com suas necessidades, ou seja o homem se coloca como tempo superior às demais espécies, sem se preocupar com termos ambientais e questões globais.
Nesse contexto, o livro Viagem ao centro da Terra, o autor Júlio Verne buscou em seu, em meados do século XIX, uma obra de ficção a qual descreve várias revoluções que viriam a se tornar reais alguns anos mais tarde. O autor utiliza estratégias para o leitor entrar no mundo da ficção, escrevendo termos mineralógicos, geológicos e paleontológicos, fazendo com que a ficção se aproxime do cotidiano. No livro essa “viagem” para o centro da terra é feita por dois personagens que relata suas aventuras no decorrer dessa jornada.  
Portanto, a relação do livro “Viagem ao centro da terra”, com o termo antropocentrismo em que Ewa aborda no seu texto, percebemos uma relação do homem com a natureza de forma violenta, o que resulta em crises ecológicas, aquecimento global, entre outras questões. A mineração, as crateras, feitas pelo homem são cada vez maiores, em busca de diamantes, petróleo, afim de satisfazer suas necessidades que envolve todo um sistema capitalista ao qual é inserido. Um exemplo disso é a Mina Diavik, utilizada para a extração de diamantes no Canadá, a qual em 2003 começou a ser aberta e hoje ocupa mais da metade de uma ilha que tem aproximadamente 12 Km².


terça-feira, 26 de novembro de 2019

O mundo vai acabar, ou acabaremos com ele antes?


“O munda vai acabar em 2012!” Embasados na teoria do fim do calendário Maia, essa foi uma das grandes manchetes de jornais e revistas do referido ano. Mas, ao analisarmos as questões ambientais e ecológicas, percebemos que, mesmo que não tenhamos uma data definida, o mundo está, de fato, acabando. A cada dia que passa, esgotamos ainda mais os recursos naturais, a camada de ozônio se afinando a um ritmo assustadoramente elevado, a temperatura da Terra nas alturas, e por ai vai...

Estamos em pleno Século XXI e o homem ainda não se deu conta de que somos parte da natureza e que, ao destruir o planeta, estamos destruindo a nós mesmos. Esse distanciamento colocado entre os humanos e os outros seres vivos faz com que pensemos sermos indestrutíveis, que temos a capacidade de nos adaptarmos... Mas não seria o contrário? Não seria a natureza capaz de se reinventar e continuar a perpetuar-se, mesmo sem nós?

A abordagem trazida por Ewa Domanska sobre o naturalismo, que engloba esse egocentrismo de, ora nos sentirmos inatingíveis, ora nos sentirmos heróis e únicos capazes de salvar o planeta, nos faz repensarmos nossa relação com a natureza, onde ela nos coloca em cheque com nossas perspectivas sobre tal relação. Precisamos entender que a natureza não está apenas a mata nativa protegida por órgãos de preservação ambiental, a natureza também é o terreno baldio ao lado de nossa casa, onde as plantas nascem sem restrições e onde insetos e outros animais continuam a viver. E, apesar de majoritariamente não nos enxergarmos assim, o homem é animal, mamífero, e também é parte deste sistema...

Ao pensar sobre estas questões, nesse cenário de mudanças climáticas e a relação homem-natureza, me esbarro com as colocações de Chakrabarty sobre essa nova experiência da temporalidade, onde tem-se uma inversão dos papéis, com a natureza mudando mais rápido que a sociedade e o futuro, se tornando cada vez mais incerto.

Mas como as ciências sociais e humanas poderiam lidar com essa agência geológica do homem sobre a natureza? Como podemos sair desse pedestal que nos colocamos em relação aos outros seres vivos? Como a natureza reagiria sem nós? Eis algumas das questões que me faço e que precisamos discutir e levar adiante para pensarmos em possíveis soluções à essa destruição constante que fazemos na natureza, em nós mesmos...


segunda-feira, 25 de novembro de 2019

A nostalgia nas discussões políticas de direita do Brasil contemporâneo.


Os últimos anos no Brasil foram de grande turbulência no espaço político, social e econômico. Em sua relação com a América Latina, percebemos, pelo escopo dos movimentos e processos dos últimos meses que os estados nacionais divididos em extremos,  enfrentam uma luta por memória e por poder que move inúmeros setores da sociedade. Svetlana Boym, no ensaio O Mal-estar da Nostalgia publicado em 2017 pela revista História da Historiografia, discorre especialmente sobre duas formas históricas de expressão desse fenômeno: a nostalgia restauradora e reflexiva. Enquanto a segunda percebe a irreversibilidade dos tempos, se caracteriza por um prazer na própria duração do tempo  embora ultrapasse os limites de espaço e calendários  – e respeita  as distancias existentes entre identidade e similaridade; a  primeira nostalgia caracteriza-se por uma relação mais estreita com o passado, podendo se constituir numa encruzilhada para o fortalecimento do patriotismo, espírito nacional e religioso, apresentando-se não como nostalgia, mas como tradição e verdade. 
Portanto, poderíamos aqui nos atentar para uma das questões que envolvem a relação do atual governo e de muitos de seus apoiadores com o regime militar. Enquanto historiadores, sociólogos, cientistas políticos, dentre outros especialistas sobre o assunto possuem trabalhos e discorrem a respeito do período histórico,  grupos de direita e extrema direita ignoram os fatos e defendem o período. Os mesmos que ignoram tais fatos utilizam discursos democráticos para reforçarem suas opiniões e conseguirem apoio de outros setores da sociedade. São evocados e promovidos em discursos nos mais diversos meios o patriotismo, espírito nacional, princípios e valores morais ligados em sua maioria com o pensamento dominante. São comuns as referências ao período monárquico, “onde a tradição e os bons costumes eram ensinados e seguidos”. É preciso mencionar, inclusive a constante ameaça comunista que perpassa o discurso político como uma trama que assombra toda a ordem social, a propriedade e as formas de liberdade. Todas essas questões que se confundem com a luta social dos sujeitos por melhores condições de vida, educação e participação efetiva na vida política, passam a ser vistas sobre o pano de fundo do comunismo. 
A partir dessas questões podemos relacionar que muitos dos elementos presentes no discurso e pensamento contemporâneos no Brasil dialogam de certa forma com uma das expressões da nostalgia:  a restauradora. Segundo Boym, “a mistura de nostalgia e política pode ser explosiva”  (BOYM, 2017, p. 155) e essa explosão se percebe pelo caráter não apenas compensatório que sua experiência pode prometer. Citando o historiador Eric Hobsbawm, a autora destaca a diferença entre o passado e as formas de representação desse passado construídas com a intenção de apresentar-se como tradições e costumes, ganhando força e legitimidade diante dos sujeitos. Enquanto a expressão reflexiva da nostalgia é mais plural, a restauradora possui uma única fórmula, ao estilo mítico e absoluto. Os tempos áureos e de prosperidade desmistificados pelas ciências são evocados nostalgicamente por muitos grupos contemporâneos no Brasil num objetivo de retorno ao que deveria ser, movendo sujeitos diversos, dentre religiosos e mesmo em meio aos mais desprovidos. A imagem da arma, as cartilhas, a marcha, a continência, a postura, a heteronormatividade e a pluralidade dentre de seus devidos lugares – a floresta, enquanto ainda existem florestas, o armário, a casa, os guetos e as covas. Portanto, como bem conclui Svetlana Boym, tendo em vista as dissidências,  “o imperativo da nostalgia contemporânea é estar saudoso da casa e enfastiado da mesma – ocasionalmente, ao mesmo tempo” (BOYM, 2017,  p. 164). 

sábado, 23 de novembro de 2019

Futuros presentes da pós modernidade



Em "Passados presentes, mídia, política e amnésia" Hyussen explora o interesse dos meios midiáticos ocidentais na produção de narrativas sobre o passado. O autor destaca que a memória ocidental tem se relacionado de maneira muito intensa com lembranças traumáticas nos seus processos de constituição do entendimento de categorias essenciais ao existir humano como o tempo e o espaço. Esse fenômeno, intensificado cada vez mais com o avançar das investidas dos movimentos epistêmicos do sul, da teoria queer, dos feminismos, dos movimentos lgbt produz narrativas e decisões políticas importantíssimas, que muito tem contribuído no embate decolonial. A abertura vinda daquilo que se convencionou chamar de pós modernidade, é, no entanto ambígua, como lembra Stuart Hall. A complexividade desse movimento fica explícita quando pensamos a apropriação que a o mercado midíatico tem feito dessa alteração na percepção temporal do ocidente. Produtos são diariamente produzidos visando o lucro não apenas de memórias fabricadas, mas também dos futuros que esse lembrar fabrica. O anseio moderno pelo avanço, como destaca o autor, foi substituído por intenso namoro pelo passado. A frustração das modernas filosofias de tempo conduziu-nos a um estado de horror ao momento presente e de atemorização pelo que está a frente. O nosso fim já é eminente, e segundo os recentes estudos climatológicos já nasceu a geração que enfrentará uma crise imensa de recursos naturais essenciais a vida humana na terra. Feita essa breve contextualização, gostaria de explorar uma propraganda lançada em 2018 pela Mistubish ao anunciar seu mais recente carro o "apocalipse". No vídeo, um cenário de total colapso da realidade material é construído, mas, estranhamente todos os personagens encontram-se com enormes sorrisos enquanto invadem museus e disputam no braço passados materializados nas pinturas. De repente aparece o imponente e poderoso carro, que salva seu dono de todas as possíveis dificuldades advindas do fim do mundo. A propaganda me lembrou muito o texto de Hyussen pois nos leva a refletir a forma da narrativa midiática/publicitária e seu impacto. Até mesmo o fim do mundo, um "passado presente" pode  assumir uma presença festiva e que impulsione o consumo. Isso parece demonstrar o quanto esse tipo de representação não se preocupa  em retratar a realidade histórica em todas as suas nuances, o quão incapaz de expressar todo o dilema existencial humano ela é. O que está em jogo nessa experiência estética realciona-se muito mais com um caráter lúdico e mercadológico.

Patrimônio Cultural e Nostalgia

Nossas ações cotidianas são orientadas a partir de uma certa movimentação entre passados, presentes e futuro, porém esta movimentação depende menos da nossas vontades individuais e até mesmo coletivas. Ela é determinada por uma certa atmosfera sentimental. Boym traz a nostalgia como o sentimento de movimentação contemporânea, sentimento este que reflete diretamente nos espaços patrimoniais e museais. Há um interesse crescente nos últimos anos nestes espaços. O desejo e o querer, despertados a partir dessa nostalgia, nos faz procurar meios de experimentar realidades de passados distintas das atuais. Gumbrecht justifica essa ação por um "fascínio" em relação a outras realidades, Derrida traz a ideia de uma "arqueologia impossível da nostalgia", que seria o "desejo doloroso de retorno à origem autêntica e singular" (DERRIDA, 2001, 110).
Porém esse sentimento de nostalgia não é coisa dos séculos XX e XXI, já no século XIX já podemos perceber essa tendência em patrimonializar e procurar algo no passado para o presente. Essa movimentação fica clara quando falamos de teoria do restauro e em teóricos como Viollet Le Duc, para o arquiteto um edifício deveria ser restaurado a sua forma original, mesmo que esta nunca tenha existido. Essa forma original seria então a busca por um completude autêntica no passado. Atualmente continuamos buscando algo no passado ou algo de passado que possa preencher algo que nos falta. O patrimônio quando visto como objeto de desejo e consumo reflete essa movimentação, buscamos algo que possa suprir a necessidade de representação e identidade na realidade na qual vivemos a partir de uma realidade da qual viemos. Essas realidades de confundem e se ressignificam constantemente. O patrimônio cultural torna-se então uma alegoria disto, ele é o que "estava lá" no passado e que esta aqui hoje, extrapola as barreiras temporais com as quais não podemos lidar - não podemos voltar ao passado, nem avançar ao futuro. Talvez essa movimentação e a necessidade de preservação atue como um ato compensatório ou de justiça em relação aos passados e suas vozes, mas também em relação ao presente e suas necessidades.

Passados, presente e memória

Desde o final do século XX podemos perceber uma mudança considerável no agir teórico prático cotidiano no que diz respeito à passados e como tratamos estes passados no presente.  Esta movimentação depende de uma atmosfera específica para que aconteça que determinará como ela ira ocorrer, se mais ou menos intensa, por sentimento de felicidade ou medo, por exemplo. Medo e culpa, sentimentos herdados do século XX transformam efetivamente a relação com os passados, que por uma ressignificação para o presente e no presente apresenta um novo sentido. Esse movimento de ressignificação poderia ser só mais um ao longo da história, porém, aliado a ele temos a percepção que este passado agora e comercializável e lucrativo. Explorando esses sentimentos e também outros como nostalgia, felicidade, angustia, ansiedade este passado torna-se produto. É produto do cinema, da indústria de jogos, de museus e espaços patrimonializados. Como qualquer outro produto será que o passado tem vida útil e pode ser descartadado a qualquer momento por outro passado, um passado que agrade mais o presente, que preencha o seu desejo ou apenas lhe dê a falsa sensação de preenchimento desse desejo, isso por que o tempo de permanência neste passado também é acelerado de forma que ele são seja capaz de oferecer o que realmente se espera de um passado.
Em contrapartida a este movimento de aceleração procura-se então a construção espaços de memória, Lugares de Memória se usarmos um termo de Nora. Há a necessidade desses lugares porque o os meios naturais de memória já não estão tão disponíveis quanto antes e também já não cumprem seu papel. Esses espaços, geralmente, representados pelo patrimônio cultural atuam como um ato sensível compensatório para esse desequilíbrio e estabilidade que se anseia. Chegamos então a um "boom" de espaços voltados a construção de uma memória, não há mais a necessidade que este espaço - seja um espaço físico ou um objeto - seja do passado, pode ser algo construído hoje mesmo, depende apenas de uma apreensão, acredito eu sentimental, sobre ele. Questiono-me então: Como, pra que e por que a memória?