terça-feira, 12 de novembro de 2019

Quase escondida entre a casca e o tronco, teia de aranha. (Rodrigo de Almeida Siqueira)


“O mundo das forças permanece como uma teria de aranha da qual não se pode fazer vibrar um único fio sem sacudir toda a malha.” (Placide Tempels, La Philosophie bantoue, Paris, Présence Africaine, 1945).

    A ideia do paternalismo na relação humano-natureza, apontada por Domanska como um fator que permanece dentro do “antropocentrismo iluminista”, me fez recordar do texto de Jean-Bosco Kakozi Kashindi, “Ubuntu como ética africana, humanista e inclusiva”, publicado em 2017 no Cadernos IHU ideias. Creio que as duas discussões estão interligadas, por mais diferentes que sejam, explico:
  • O que Domanska define como o paternalismo relação humano-natureza implica em um domínio humano, com base em relações hierárquicas, na sua relação com seres não-humanos. Para ela, essa é uma abordagem conservada e não progressista, com base num discurso de colonização do humano sobre o não-humano. Assim, a natureza e os outros seres são tratados como frágeis e vítimas, numa perspectiva semelhante a como são tratadas mulheres, crianças, pessoas com deficiências na sociedade ocidental. Cabe ao humano “salvar” a natureza da crise climática da qual é ele mesmo o seu autor.  
  • Kakozi, ao apresentar a ética ubuntu, discute o ser como uma força, assim como todas as entidades que o acompanham. As forças têm como finalidade a geração, o cuidado e a transmissão da vida. Assim, nada se move sem influenciar as outras forças. Nessa perspectiva, a vida humana depende de outras forças, outras entidades não humanas, como ar, a água, o espaço. A vida humana é recebimento e continuidade de recebimento da vida de outros seres não humanos. Aqui, a relação humano-natureza é uma relação vital. Não existe um sem o outro.
São duas formas de pensar e de existir diversas, têm diferenças pungentes que ultrapassam para a construção da subjetividade humana. São parecidas quando uma critica a forma como os humanos brancos ocidentais relacionam-se com a natureza e quando a outra apresenta uma forma de existir e de coexistir que difere completamente da crítica primeira. Como Domanska já pontuou em outras discussões: é preciso que o humano branco ocidental abra-se a conhecer e a ouvir experiências outras que o desloquem desse lugar colonialista e de fechamento de futuros, para repensar modos diversos de habitar o planeta. Compreender a natureza como algo que ultrapassa a relação de domínio, já que sem o humano ela permanecerá existindo enquanto que o contrário não é possível, é um primeiro passo para esse novo habitar. A ética ubuntu, a bioética que a engendra, já entende isso há séculos: “entende-se então a vida como um dom que emana dos antepassados, que a receberam de uma cadeia de seres humanos e não humanos que vai até Deus, 'a grande e poderosa força vi[tal] (semelhante, N.T.)'" (KAKOZI, 2017, p.11, grifos meus).

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Breve reflexão sobre o texto de Ewa Domanska


O texto da historiadora polonesa Ewa Domanska traz alguns questionamentos importantes para o campo da Teoria da História, pensando especificamente no futuro desse ambiente intelectual. O que chama atenção no argumento central da autora, é sem dúvidas se arriscar em projetar um novo campo semântico de questionamento ao humanismo, este traduzido em sua análise como o antropocentrismo iluminista que está presente até hoje dentro das ciências humanas, sobretudo impulsionado pelas teorias construtivistas e da modernidade no século XX pautada principalmente no campo da História por uma inteligibilidade centrada no aspecto racional da historiografia, presente desde a perspectiva historicista do dezenove. Desse modo, pontua bem sua crítica às ciências humanas gozarem de uma atitude antropocêntrica desde sua configuração.
A proposição de transformar o pos-humanismo(pós-humanidades) em um campo da história também dos não-humanos ainda hesita em problemas teóricos – universalismo- que outrora foram criticados e abandonados com a crítica pós-colonial por muitos historiadores, centrada na relação local. A autora reconhece que a saída para um futuro orientado possível para teoria da história passa pela percepção de que “tornando-se” além-humano a partir da evolução técnica com suas interações interespécies e seres inanimados, a História deveria transformar sua percepção que parece ser mais idealista.
Entretanto, é problemático essa aposta nos “deveres universais da humanidade salvar o planeta” sem fundamentar uma crítica seminal ao capitalismo financeiro/industrial que desde o século XX impulsionou as transformações “identitárias além-humanas”, e consequentemente, a destruição em massa das outras espécies, inclusive a espécie humana.
É importante nos atermos à preocupação ambiental dentro do campo da história como debate que busca dar sentido as mudanças tão rápidas do nosso tempo, que nos colocam cada vez mais em contato com uma existência não-humana incessantemente, seja através da bioteconologia ou das tecnologias da informação que impactam dialeticamente o que nos define socialmente na nossa relação com os objetos que agem e modificam nossa percepção sobre a História. Desse modo é positivo a epistemologia relacional presente em Latour exposta por Domanska, no qual a autora se debruça para defender uma flexibilização do objeto para ser possível uma história não-atropocêntrica. Isso nos oferece possibilidades de expandirmos uma percepção menos capitalista sobre o que é e qual a importância da sustentabilidade, a necessidade de preservação de outros seres vivos através de um paradigma descentrado da “história do homem no tempo”.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Entre inícios e fins: Ailton Krenak e a crise climática planetário


Ailton Krenak inicia o livro “Ideias para adiar o fim do mundo”, convidando para uma reflexão sobre o processo de colonização. Esse processo, que possui a dimensão territorial, conta com a colonização do imaginário, uma vez que legitimou a dominação de vários grupos sociais com o discurso de estar levando esclarecimento à mentalidades atrasadas/obscurecidas.
Nesse livro, o líder indígena chama atenção para o fato de que os processos de criação e invenções, desdobramentos da própria existência e da liberdade, estarem nublados no que considera servidão voluntário; isto é, ao estilo de vida que temos hoje em dia, que possui a face de livre arbítrio, mas que responde aos estímulos de uma macro-política que organiza nossas experiências neste mundo, por meio de uma narrativa globalizante e superficial, pautada na razão. O modelo de progresso, propõem, na verdade, uma abstração civilizatória, que é fundamentada na negligencia de pluralidades, tornando todos os indivíduos iguais. Ao contrário das organicidades indígenas.
Diante desse cenário, faltam perspectivas diante das crises e que não possibilita enxergarmos o que está faltando. A falta de experiência enquanto comunidade (comum-unidade) é suprida pelo consumo e que está diretamente ligada à crise ambiental planetária. Nosso tempo, portanto, é marcado por um tempo de ausências.
Ausências essas que influenciam diretamente para os sentimentos de intolerância, com povos que possuem outros tipos de organizações sociais, como no caso de Ailton, os Krenak. Ausências que são supridas pelo estímulo de sensação de fim de mundo, desestimulando a possibilidade de sonhar, que é enxergada como uma possibilidade de manter a energia para seguir caminhos e outras construções.
Entretanto, existem caminhos a serem seguidos. O fim do mundo talvez seja o fim desse mundo racializado e heterogêneo, por talvez tenha esteja sendo enxergado como sem soluções, uma vez que nosso imaginário é colonizado. Mas para possibilitar sonhar, Ailton diz que é preciso ouvir histórias, daqueles grupos onde a visão de fim poderia estar presente mas que foi adiada diariamente com muita resistência.
A partir de uma mobilização comunitária, o movimento “Deixa a onça beber água limpa”, por exemplo, busca a reconfiguração socioeconômica e ambiental da região do Ribeiro de Abreu, localizada no norte/nordeste de BH, reivindicando a organização dinâmica do espaço. Depois da desocupação por conta dos riscos de alagamento muitas casas saíram e decidiram criar um parque ciliar para que não houvesse chances de reocupação. O movimento acontece com apoio do COMUNPRA, em apoio aos âmbitos de poder público para a recuperação das águas.



O tempo atual consome nossas subjetividades a medida que impede estarmos em movimento para a superação de crises, que envolve a liberdade para inventar, respeitando as diferenças que cada um possui e a possibilidade de nos atrairmos pelo não igual.

A homogeneidade tira a alegria de viver.

Ailton convida a repensar que o deslocamento retira o sentido, que nesse caso, é a retirada da zona de conforto com a cultura dominante estava inserida. Mas enxerga também uma possibilidade de despertar para outra consciência, entrando em comunhão com a Terra, uma vez que esses impactos atingem a todos de forma transversal. Nesse sentido, parte também de uma necessidade de entender as necessidades do próprio meio ambiente, onde as relações de hierarquização também são refletida.


Sonhar para continuar acordada


Na foto de 2005, o morador Errol Morning atravessa em seu barco as ruas inundadas de Nova Orleans. Devido ao Katrina, 80% da metrópole do estado da Louisiana ficou debaixo d'água. Mais de 1,8 mil pessoas morreram. Veja mais imagens em: https://www.dw.com/pt-br/dez-anos-do-furac%C3%A3o-katrina/g-18677421.
 
A discussão trazida por Chakarbarty sobre o Antropoceno e as questões em torno do lugar da história em um cenário de crise climática mundial causam incômodo. Primeiro, porque nos coloca enquanto força geológica. Ele demonstra que nós, humanos, devoramos a natureza de tal forma, tão abrupta e violenta, que fomos capazes de alterar a atmosfera, o clima, o solo. Essa perspectiva nos situa em um lugar e traz responsabilidades para com ela, demonstra que precisamos mudar radicalmente a nossa forma de lidar com a natureza. Em segundo lugar, causa incômodo por gerar um sentimento de ansiedade. Pensar que já estamos em um cenário de crise climática gera medo. Pensar que em poucos anos a tendência é uma considerável piora do estado das coisas também gera medo. No fim das contas, temos um estado de ansiedade generalizada, uma visão negativa do amanhã, a ponto de não sermos capazes de planejar futuros, de projetar, de sonhar.
Quando Ewa Domanska nos convida a pensar Humanidades que estejam voltadas para a elaboração de futuros e que se atente aos conhecimentos ancestrais constantemente silenciados e assaltados para conseguirmos realizar tal movimento, também há um incômodo. Primeiro, por exigir de nós um movimento e um movimento firme. Um movimento que nos desloque do lugar atual de futuros fechados e que nos leve a outros lugares. Segundo, porque envolve reconhecer que a nossa sociedade, branca e ocidental, já não é mais capaz de sonhar. Estamos caducos. O passado não nos importa mais, o presente é puro evento e o futuro.... não existe.

O chamado de Ewa, para as microutopias, assim como de Ailton Krenak, pensando os sonhos, e os ensinamentos riquíssimos de Jean-Bosco Kakozi Kashindi sobre a filosofia ubuntu e a bioética, dialogam entre si de forma pungente e podem nos ajudar a pensar que futuro queremos e quais humanidades necessitamos para o agora e o por vir. O reconhecimento do epistemicídio é um primeiro passo que precisa ser dado para que o movimento de sentar e de ouvir filosofias ancestrais que ainda possuem a capacidade riquíssima de pensar futuros se concretize. Sonhar é um movimento cerebral de organização de memórias do que já se foi e de perspectivas do amanhã. Que não percamos essa função cerebral que, ao meu ver, é a saída para elaborar novas formas de bem viver, de bem estar, de bem compartilhar.  

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Em dívida com o planeta Terra


      Neste meu último semestre da graduação, resolvi fazer o Enem para testar meus conhecimentos ao fim da faculdade. Surpreendo-me com uma questão de Geografia falando sobre como o ser humano modifica o mundo a ponto de cientistas estarem considerando que vivemos no Antropoceno.
Chakrabarty, em “O Clima da História: Quatro Teses”, aponta para a humanidade, a partir do conceito de Antropoceno, como agentes geológicos, ou seja, estamos causando mudanças no meio ambiente que, mesmo que os humanos desaparecessem da Terra, os impactos seriam ainda sentidos pelo planeta. A partir da Revolução Industrial, começamos a queimar combustíveis fósseis – primeiro o carvão e depois petróleo e gás – a fim de garantir certa “liberdade” proposta pelo Ocidente. A resposta está sendo sentida: mudamos a química do solo, respiramos 42% mais de SO2, aumentamos a temperatura dos mares e continuamos degradando o meio ambiente.
     A conta chegou. Como endividados despreocupados, consumimos plástico, gasolina, petróleo como se não houvesse amanhã. Porém, o amanhã já é hoje e o hoje é de sentimento generalizado de catástrofe sem volta! Porém, há os que negam a crise climática: na ONU, o presidente do Brasil aponta para os altos índices de conservação da Amazônia (que está ardendo em chamas); nos EUA, Trump flexibiliza as leis de emissão de metano, favorecendo as grandes companhias de petróleo e gás; na sociedade civil, enquanto o delírio toma conta de alguns, outros nem parecem se preocupar com o fim do mundo que já é sentido.
      O futuro é de catástrofe, o presente é estático e não passa. A História precisa enxergar a Natureza como agente determinante no curso da humanidade. A espécie está ameaçada, de acordo com o autor indiano. No entanto, quantos indivíduos ainda não são nem considerados humanos? O Ocidente exterminou negros e populações originárias há no mínimo 500 anos e todos pagamos o pato pela crise climática? A História irá responsabilizar os causadores da crise climática?
      Enem 2019: o Antropoceno entra em questão, em meio a um governo despreocupado com o meio ambiente. A conta estourou e o cartão deve ser quebrado. Não há mais crédito com o planta, mas sim dívidas crescentes.

A emergência do coletivo para um futuro possível

A relativização e a falta de consciência de certos eventos da história se ampliam também aos desastres ambientais que vivemos, isso parece ser uma tendência cada vez mais comum, como resposta a um receio, ansiedade de encarar e se planejar para um futuro que tenha a continuidade e as consequências de tais coisas relativizadas. Assim contrastando com o tempo do imediatismo, temos os processos da natureza, que seguem um desenrolar mais lento, que projeta a concretização das consequências do mal-uso dos seus recursos para um futuro. Nisso, parece que se torna cada vez mais emergente a conciliação do tempo da vivência humana – do imediato – com o tempo mais lento, mas que vem se alterando de modo gradativo, a fim de se refletir melhor em possibilidades de ação no hoje para garantir possibilidades de futuro.  
Em seu texto “O que é o contemporâneo”, Giorgio Agamben defende a ideia de que somos o elemento passageiro enquanto a natureza é o permanente, em razão de nosso tempo de existência em relação a ela ser mais finito. Partindo disso, percebemos que apesar de tal definição a natureza dá sinais cada vez mais retumbantes de que a ação humana sobre ela pode mudar tal permanência, a limitando a uma vida mais curta. Essa ação do sujeito sobre a natureza impõe uma nova situação historiográfica, no sentido da necessidade de pensar o futuro além do humano. Este que, por sua vez, se tona um agente geológico, dotado de força capaz de mudar e comprometer o destino da humanidade no futuro; em uma era na qual, por parte de alguns cientistas, atribui-se o nome de Antroproceno. É sobre isso que Dipesh Chakrabarth se atém em seu texto “O clima da História: Quatro Teses”. 
Visando pensar possibilidades para um futuro percebemos que mais do nunca, se torna necessário recorrer a outros tipos de conhecimentos, como o do povo indígena, que possui a consciência do espaço ambiental justamente por estar nele e conhece-lo, não o tendo como um elemento mercantilizado que proporciona o lucro. É esse estar em contato com o meio ambiente - que aliás é uma experiência até mesmo atípica para os moradores dos grandes centros urbanos -  faz desde acompanhar o processo de desenvolvimento de uma planta, até a ação de uma praga sobre ela, que possibilita, de certo modo o desenvolvimento da empatia com esse local, à medida que viabiliza a vivência com esses processos naturais, de um tempo mais lento, viabilizando assim tanto uma valorização, quanto uma preservação. 
A nova situação historiográfica, possui como característica, como defende Chakrabarth: o fim da velha distinção humanista entre história natural e história humana, distinção está que considera que a história natural só possui uma história ao passo que os sujeitos criassem uma narrativa para ela. Porém, hoje esse sujeito, como já dito anteriormente, é um agente geológico, dotado de força geológica de transformação. Nesse contexto, o meio ambiente se apresente muito além de um plano de fundo para ação do homem, à medida  que a ação do homem sobre ela, como uma força, torna necessária a todos  pensar novas formas de estar no mundo, já que as condições essenciais de existência, como a estabilidade climática, o desaparecimento de espécies animais e também vegetais, o esgotamento de água doce, dentre outros se apresentam como fator preocupante, comum a todos, de possibilidade de construir narrativas futuras. Portanto, a emergência de se pensar um “nós” coletivo, como defende Chakrarabarth, não em um sentido de identificação comum, mas partindo da diferença que também compõe esse “nós”, como possibilidade de projetar futuros possíveis de permeância a todas as espécies é imprescindível.