terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Da irrevogabilidade à tentativa de volta ao passado autoritário


A questão introduzida por Bevernage no seu texto História, Memória e Violência de Estado: Tempo e Justiça traz as seguintes questões: se a História com a concepção passadista é construída a partir da (distância ou ausência) como fundamentar o "dever de memória" após os eventos traumáticos do século XX? Ou como se voltar ao passado como reparação e justiça através do entendimento tradicional da história de rompimento com o presente, portanto sendo o passado inacessível?
O texto traz a questão das diferenças entre o tempo histórico e o tempo da justiça na busca de uma definição conceitual de tempo histórico necessária para lidar com o passado de maneira ética, sem esquecimento dos eventos históricos traumáticos. No esteio dessa forma de pensar está o conceito de irrevogabilidade, pensamento que Bervernage discute a partir do filósofo francês Vladimir Jankélévitch.
A irrevogabilidade seria a flexão temporal entre passado e presente, espécie de continuidade temporal que permite ser uma ferramenta importante para lidar com eventos traumáticos e julgamentos de Estado em relação aos regimes ditatoriais e totalitários do século vinte. Pensar o passado apenas como irreversível, algo que cria distância total do presente para se pensar historicamente, permite que eventos de anistias para perpetradores da violência do Estado e os sofrimentos dos mortos caiam no esquecimento, fazendo da História um instrumento para o esquecimento de eventos que tem o dever de serem lembrados.
Dessa forma, em pleno 2019 aparece discursos proferidos por representantes do Estado brasileiro na direção de um revisionismo barato acerca dos direitos humanos violados das vítimas da ditadura militar. O presidente da república, Jair Bolsonaro, recentemente intimidou de forma covarde o presidente da OAB que teve seu pai torturado e morto pela ditadura militar, onde ficou comprovado pela comissão da verdade não ter esse nenhuma ligação com a guerrilha armada - argumento falso em que se baseou o presidente para proferir as seguintes palavras: “Um dia, se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, eu conto. Ele não vai querer ouvir a verdade. Eu conto para ele”
. A perspectiva histórica atual de uma figura do Estado discursa não a partir da irreversibilidade, mas de uma volta ao passado, autoritária e violenta. Desse modo, não é essa atitude a irrevogabilidade do passado, sinônimo de uma perspectiva temporal que atua em prol da memória e reparações das vítimas frente à violência do Estado. Então, tais atitudes reforçam uma política do esquecimento, mesmo através da atitude de reviver nostalgicamente um passado autoritário. Pois, temporalmente não há como reviver de modo ontológico algo que já foi, mas há como politicamente usar essa lembrança nostálgica do autoritarismo para aliviar as tensões criadas entre os militares brasileiros dentro do Estado; isso significa abrandar os crimes cometidos pelos perpetradores, a ausência do Estado no seu “dever de memória” em relação à sociedade, vítima da violência deste. Trocando em miúdos, soa como tentativa de suprimir a memória coletiva.


Retrato ao fundo de Fernando Augusto de Santa Cruz,  ex integrante da Ação Popular e estudante secundarista, pai do atual presidente da OAB,  foi torturado e morto pela ditadura militar. Na imagem, sua mãe, Elzita, que lutou até os últimos dias de vida pela justiça do Estado frente aos crimes cometidos contra seu filho na ditadura. 


Referências

BEVERNAGE, Berbere. História, Memória e Violência de Estado: Tempo e Justiça. Editora Milfontes. Espírito Santo, 2018. 

PUTTI, Alexandre. Bolsonaro ataca pai de presidente da OAB morto na ditadura militar. Revista Carta Capital, 9 Jul, 2019. Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/politica/bolsonaro-ataca-pai-de-presidente-da-oab-morto-na-ditadura-militar/>  Acesso em: 3/12/2019.

Continuação da "Pipoca" : "A emergência do coletivo para um futuro possível"

Floresta do Camboatá. "Por ficar numa região de Planície, a Floresta abriga pequenos lagos, utilizados por jacarés, capivaras, e por uma espécie raríssima chamada de "peixe das nuvens". FOTO: Gustava Pedro_2019.
Pensar no futuro suscita insegurança, ao passo que as alternativas para ele, quando não são utópicas, não são as melhores. O cenário, seja no âmbito político, econômico, ambiental, possuem elementos em comum que convergem para a finalidade de aumento de capital, esse que não vê obstáculo para o seu progresso. O neoliberalismo, então, com a desumanização do sujeito, à medida que este é cada vez mais visto como mercadoria, tal como a natureza, faz emergir um novo chamado historiográfico, qual seja, repensar o escrever histórico, incluindo elementos outros, que não só o humano, visando alcançar uma nova racionalidade, a partir do ativar de uma nova consciência: a ambiental.  

Reflexo dessa necessidade, por exemplo, é o caso da floresta de Camboatá, que possui importância significativa por fazer parte da Mata Atlântica do Rio de Janeiro. Nesse lugar, é desejo da prefeitura dessa cidade a construção de um autódromo, fato que acarretaria a morte de mais de cem árvores, além de aves, répteis e mamíferos. Isso reflete a forma como o meio ambiente é desvalorizado, mesmo que hoje tenhamos demandas mundiais para a conservação do mesmo. Nesse sentido, temos o discurso da ativista Greta Thunberg, no qual ela fala: “Nós estamos vivenciando o começo de uma extinção em massa. E tudo o que vocês fazem é falar de dinheiro e de contos de fadas sobre um crescimento econômico eterno. Como vocês se atrevem?” 
"Um tiê-sangue, ave endêmica do Brasil, simbolo da Mata Atlântica, encontrada numa área litorânea que vai da Paraíba e Santa Catarina. " FOTO: Gustavo Pedro_2019. 
É diante dessas novas questões, que mais uma preocupação é posta aos historiadores, à medida que relativização e a falta de consciência de certos eventos da história se ampliam também aos desastres ambientais que vivemos, isso parece ser uma tendência cada vez mais comum, como resposta a um receio, ansiedade de encarar e se planejar para um futuro que tenha a continuidade e as consequências de tais coisas relativizadas. Assim contrastando com o tempo do imediatismo, temos os processos da natureza, que seguem um desenrolar mais lento, que projeta a concretização das consequências do mal-uso dos seus recursos para um futuro. Nisso, parece que se torna cada vez mais emergente a conciliação do tempo da vivência humana – do imediato – com o tempo mais lento, mas que vem se alterando de modo gradativo, a fim de se refletir melhor em possibilidades de ação no hoje para garantir possibilidades de futuro.  
A vista disso, Ewa Dosmanka defende que tanto os referencias teóricos, quanto as ferramentas de interpretação presentes até então no campo da história, não são suficientes para suprir as disposições das questões atuais. Sendo necessário então levar em consideração a situação atual, a luz do novo panorama que a tecnologia criou. Para mais, a historiadora acrescenta que os conhecimentos produzidos sobre o holocausto, por exemplo, não foram capazes de evitar crimes contra a humanidade, a guerra na ex-Iugoslávia ou do genocídio em Ruanda. Com isso, ela considera que precisamos produzir um conhecimento, uma ciência humana que tenha valor de sobrevivência, que visa a continuidade das espécies.  
Em seu texto “O que é o contemporâneo”, Giorgio Agamben defende a ideia de que somos o elemento passageiro enquanto a natureza é o permanente, em razão de nosso tempo de existência em relação a ela ser mais finito. Partindo disso, percebemos que apesar de tal definição a natureza dá sinais cada vez mais retumbantes de que a ação humana sobre ela pode mudar tal permanência, a limitando a uma vida mais curta. Essa ação do sujeito sobre a natureza contribui para reafirmar uma nova situação historiográfica, no sentido da necessidade de pensar o futuro além do humano. Este que, por sua vez, se torna um agente geológico, dotado de força capaz de mudar e comprometer o destino da humanidade no futuro; em uma era na qual, por parte de alguns cientistas, atribui-se o nome de Antropoceno, como afirma Dipesh Chakrabarth em seu texto “O clima da História: Quatro Teses”. 
Visando pensar possibilidades para um futuro percebemos que mais do nunca, se torna necessário recorrer a outros tipos de conhecimentos, como o do povo indígena, que possui uma maior consciência do espaço ambiental justamente por estar nele e conhece-lo, não o tendo como um elemento mercantilizado que proporciona o lucro. É esse estar em contato com o meio ambiente - que aliás é uma experiência até mesmo atípica para os moradores dos grandes centros urbanos -  faz desde acompanhar o processo de desenvolvimento de uma planta, até a ação, por exemplo, de uma praga sobre ela, que possibilita, de certo modo o desenvolvimento da empatia com esse local, à medida que viabiliza a vivência com esses processos naturais, de um tempo mais lento, possibilitando assim tanto uma valorização, quanto uma preservação. Ao passo, que o sujeito não se sente alheio a esse meio.  
A nova situação historiográfica, possui como característica, como defende Chakrabarth: o fim da velha distinção humanista entre história natural e história humana, distinção está que considera que a história natural só possui uma história à proporção que os sujeitos criassem uma narrativa para ela. Porém, hoje esse sujeito, como já dito anteriormente, é um agente geológico, dotado de força geológica de transformação, de modo que suas responsabilidades pelo meio natural aumentam em congruência com as suas ações enquanto agentes geológicos.  
Nesse contexto, o meio ambiente se apresente muito além de um plano de fundo para ação do homem, em razão que a ação do homem sobre ela, como uma força, torna necessária a todos  pensar novas formas de estar no mundo, já que as condições essenciais de existência, como a estabilidade climática, o desaparecimento de espécies animais e também vegetais, o esgotamento de água doce, dentre outros se apresentam como fator preocupante, comum a todos, de possibilidade de construir narrativas futuras. Portanto, a emergência de se pensar um “nós” coletivo, enquanto espécie, como defende Chakrarabarth e Domanska, respectivamente, não em um sentido de identificação comum, mas partindo da diferença que também compõe esse “nós”, como possibilidade de projetar futuros possíveis de permeância a todas as espécies é imprescindível. 
Referências Bibliográficas 
DOMANSKA, Ewa. Para Além do antropoceno nos estudos históricos. Revista Expedições: Teoria da História & Historiografia V. 4, N.1, janeiro-julho de 2013. 
KAZ, Roberto. A chicana, uma floresta contra o autódromo de Crivella e Bolsonaro. Revista Piauí. Edição 158 | novembro_2019. Disponível em<https://piaui.folha.uol.com.br/materia/a-chicana//>Acesso em: 20/11/2019. 
CHAKRABARTH, Dipesh. O clima da história: Quatro Teses. Disponível em <http://www.culturaebarbarie.org/sopro/n91s.pdf>Acesso em: 20/11/2019. 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

História, memória, justiça e esquecimento.


           
Em História, Memória e Violência de Estado (2018), Berber Bevernage discute sobre as relações existentes entre história,  justiça e ética. A partir de duas concepções díspares, representadas pelo autor através dos pensamentos de Friedrich Nietzsche e Walter Benjamin, Bevernage propõe, tendo como referência o filósofo Vladimir Jankélévitch, uma abordagem que considere a inalteridade do passado (ou realidade histórica) para além de uma visão dicotômica entre absolutas presença e ausência. Enquanto em Benjamin encontramos a defesa de uma “solidariedade anamnésica” entre os vivos e os mortos, no sentido de uma reparação de injustiças cometidas no passado, em Nietzsche – tendo em vista a percepção da modernidade ocidental –  temos um olhar centrado no presente; ou seja, “a humanidade deveria abandonar a esperança por justiça histórica e necessitaria aprender a esquecer” (BEVERNAGE, 2018, p.  28).
Em entrevista concedida ao programa Roda Vida, da TV Cultura, o então candidato à presidência da República, Jair Bolsonaro, questionado sobre a política de cotas nas universidades,  respondeu afirmando ser essa uma iniciativa injusta que favorecia uns em detrimento de outros. Seu argumento, baseado em verdades a-históricas, possui afirmações que buscam deslegitimar lutas e conquistas sociais não apenas no país, mas no globo. Atenhamo-nos aqui, entretanto, ao que o candidato e hoje presidente eleito declarou: que não há dívida histórica pela escravidão no Brasil. Nos últimos tempos no Brasil têm sido comum a identificação de afirmações que colocam em xeque questões já discutidas pelas ciências humanas e sociais e as conclusões de Bolsonaro na entrevista concedida durante a campanha eleitoral repercutam-se entre apoiadores e pessoas sem muita instrução. Recentemente, o novo presidente indicado ao cargo de liderança da Fundação Palmares, Sérgio Nascimento de Camargo, fez declarações polêmicas sobre as lutas sociais e de memória do movimento negro. Desse modo, alinhado ideologicamente ao arsenal que compõe o governo, temos um indivíduo negro que afirma que não existe racismo num país com um passado escravista como o Brasil.
Berber Bevernage discorre em sua referida obra sobre a justiça de transição, que seria marcada por uma necessidade de reparação e respostas legais após regimes repressivos na história. Mas mesmo diante das transformações políticas e culturais no ocidente, a partir da década de 1980, fenômenos como a nova onda de conservadorismo e também o negacionismo ressurgem, trazendo novas ou velhas abordagens e concepções como as ressaltadas por Bevernage; cito a reconciliação pelo esquecimento, e a memória sombria, porém distante. É comum ouvirmos atualmente que o vitimismo e o racismo tomou conta do discurso de esquerda e do movimento negro; ou mesmo coisas mais absurdas como a recente fala de Sérgio Nascimento de Camargo, ao afirmar que a escravidão teria sido benéfica aos africanos que recebiam aqui no Brasil, durante o período da escravidão, uma vida melhor do que na África; ou ainda, Bolsonaro que  defendeu piamente no programa Roda Viva que os portugueses não pisaram na África. Por fim, uma das questões abordadas por Bevernage que aqui retomo para concluir, diz respeito ao direito coletivo pela verdade, cuja saída mais confiável é uma ciência histórica que preze pelo rigor e pela crítica constantes, tendo em vista a trajetória do campo do saber, suas limitações e desafios. Seja como for, o esquecimento e o negacionismo sistemáticos nunca foi e nunca será o melhor caminho.


Imagem: http://pretosnovos.com.br/museu-memorial/

O Rio de Janeiro continua sendo...



https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/11/13/em-10-meses-rio-tem-6-criancas-mortas-por-bala-perdida-e-poucas-respostas-para-as-familias.ghtml

Rio de Janeiro, pedra do Arpoador, 05 de Outubro de 2019.
            Estava com um casal de amigos em Ipanema, pegando uma praia. Aquela coisa que só o Rio proporciona: praia, mate e biscoito globo. De quebra uma cervejinha para dar uma espairecida. E o sol na cabeça.
            O sol ia se pôr, seguimos em direção ao Arpoador, nós três e grande parte dos banhistas que ali estavam. É como disse, coisas que só o Rio proporciona, uma delas é assistir e aplaudir ao pôr do sol no Arpex. A multidão que ali se reunia, se acomodava para assistir ao espetáculo. Um drone surge do nada e começa a sobrevoar aquela região em que estávamos, na minha cabeça, aquilo provavelmente era alguém gravando vídeos para registros pessoais. Quando ouço, atrás de mim, vindo dum grupo de meninos que estavam afastados do restante das pessoas, o seguinte comentário “Pô Bolsonaro, não atira na gente aqui não”.
            Eu gelei e fiquei totalmente sem reação quando ouvi o garoto de pouco mais de 10 anos dizer isso. Pensei que, enquanto para mim era um drone insignificante, para ele era algo ameaçador, visto que pela sua entonação aquilo parecia ser algo frequente em sua vivência. O que cabe aqui refletir juntamente com texto de Berber Bervenage, é a respeito dessas vidas que são marginalizadas e são vistas como alvo o tempo todo, por serem negros, pobres e periféricos. Por viverem em lugar que é visto como “perigoso”. Perigoso pra quem?
            Vejo esses inúmeros casos de crianças sendo mortas com balas perdidas nessas operações truculentas e me lembro imediatamente do que Marielle Franco publicou antes de ser executada “quantos mais precisam morrer para essa guerra acabar? ”, pelo visto, muitos. Segundo o G1, em 10 meses o Rio teve 6 crianças mortas por bala perdida e nenhuma resposta às famílias. Essa violência vinda do estado mostra o quanto ainda não tivemos uma ruptura efetiva com os moldes da ditadura, a polícia mata o tempo todo e o Estado ajuda apertar o gatilho. Onde se encaixa a justiça nesses casos? E a História? Como podemos pensar em justiça histórica a partir dessas milhares de vidas que são tiradas por causa do racismo?

sábado, 30 de novembro de 2019



              A série Explicando – a Mente foi ao ar em setembro desse ano pela plataforma de streaming Netflix. Em cinco episódios de vinte minutos, ela procura explicar como o cérebro funciona no tocante a cinco aspectos: memória, sonhos, ansiedade, meditação e psicodélicos. Iremos nos ater ao primeiro dos cinco aspectos, fundamental para a construção de nossas vidas e tão caro à história, ou seja, trataremos da memória. Proponho nesta pipoca uma breve reflexão utilizando muito dos conhecimentos da neurociência acerca do funcionamento da memória em contraponto com os problemas atinentes à teoria da história e à historiografia, de forma a estabelecer uma relação entre eles e procuro, mesmo que de forma insuficiente, explicar nossa dificuldade em sonhar futuros possíveis a partir de um processo biológico.
            Comecemos com os preceitos básicos. No plano individual, a memória é um complexo sistema com propósito de preservar o passado. Porém, sabemos que não podemos confiar cegamente em nossas memórias, o que nos leva a questão inicial: como funciona o processo de lembrar? O episódio explica didaticamente que as experiências que vivemos ativam diferentes áreas do nosso cérebro, o córtex auditivo, o giro fusiforme, a amígdala, etc., para que depois elas sejam combinadas pelo lobo temporal medial, no qual se encontra o hipocampo – estrutura importantíssima da memória. Entretanto, não só os eventos do passado são ativados pelo hipocampo e, para prosseguirmos, precisamos comentar o caso de Henry Molaison. Buscando tratar epilepsia, Molaison teve seu hipocampo removido. Ele não apresentou problemas comportamentais, mas houve uma perda significativa da memória episódica, ou seja, ele conseguia se lembrar de acontecimentos históricos e de hábitos que não requerem ações conscientes, como andar de bicicleta, mas sua memória recente, o que havia feito pela manhã por exemplo, estava completamente danificada. Além disso, Molaison não conseguia mais vislumbrar futuros possíveis.
            Este evento levou a neurociência para outros caminhos. A neurocientista Donna Rose Addis comenta o experimento em que indivíduos foram submetidos a uma tomografia enquanto lembravam de experiências passadas e enquanto imaginavam experiências futuras. Foi comprovado que o mesmo complexo de áreas ativados durante a rememoração era ativado, quase que identicamente, quando imaginavam acontecimentos futuros. Desse modo, o mesmo sistema que combina diferentes peças para relembrar o passado é capaz de reunir algumas dessas peças em conjunto com outras, ativadas pela imaginação, para simular futuros. Rose Addis comenta: “[a memória] permite que previnamos erros futuros, que pensemos em como os eventos podem se desenrolar, em possíveis obstáculos no caminho e em formas de superá-los.”. Assim, podemos estabelecer que, ao deixarmos a mente vagar, reorganizamos nossas lembranças e projetamos possíveis alternativas de futuro, dito de outra forma, nos permitimos sonhar.
            Mas como isso é relevante para o campo da história? Sustento que o que transparece na neurociência para cada indivíduo, esbarra na sociedade como um todo, gerando o problema da necessidade irrefreável de relembrar passados atrelado ao medo do esquecimento. Assistimos com o advento de novas tecnologias à uma sobrecarga de lembranças e de não esquecimento. O Facebook, por exemplo, não deixa de notificar os inúmeros aniversários ou os eventos de anos atrás; podemos acessar, em tempo real, os acontecimentos de qualquer parte do mundo; consumimos disparada e repetidamente novas séries televisivas, artistas, produtos dos mais diversos tipos. Estamos desorientados com a vastidão de lembranças as quais não conseguimos decidir devidamente se devem ou não serem esquecidas, ou ainda, nas palavras de Andreas Huyssen em Passados presentes: mídia, política, amnésia: “devemos fazer um esforço para distinguirmos passados usáveis dos passados dispensáveis. ” (p. 37).
            Desse modo, é como se, neurologicamente, nosso cérebro estivesse saturado de memória e não há espaços em branco para serem reorganizados em alternativas de futuro. Estamos abarrotados e incapacitados de preencher as suas lacunas e, ironicamente, somos uma sociedade que desaprendeu a sonhar. Estamos ilhados no conforto da nossa memória, mas como bem sabemos, ela “é sempre transitória, notoriamente não confiável e passível de esquecimento”. (HUYSSEN, p.37). Talvez tenhamos que seguir as colocações de Huyssen e “lembrar o futuro”, o que aqui significa aprender a esquecer alguns passados para que seja possível alcançar um vislumbre de um futuro diferente do presente e do passado.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

O uso político da nostalgia


Como mostra Svetlana Boym, em seu texto Mal-estar na nostalgia, o sentimento nostálgico não se coloca como manifestação de uma condição meramente individual, mas sim como um sintoma característico de nossa época. De certa forma, a nostalgia se expressa como uma espécie de emoção histórica, transcendendo o espaço da doença individual e assumindo com isso uma dimensão coletiva. Num sentido mais amplo, ela poderia ser definida como um sentimento de perda e deslocamento que paira sobre uma fascinação com a própria fantasia. Nesse sentido, a sensação nostálgica não seria apenas a expressão de uma saudade local, mas resultado do sentimento de anseio por um tempo diferente, que expressa uma nova compreensão do tempo e do espaço.
Dentro do sentimento nostálgico há, portanto, uma revolta contra a ideia moderna de tempo. Ao se confrontar com essa dimensão irreversível, o nostálgico deseja o que não existe mais em um presente que está em transformação. Esse sentimento, que não se restringe ao plano da consciência individual, passa a produzir visões subjetivas resultantes desse processo de angústia que tende a se expandir não só para os domínios do campo histórico e cotidiano, mas também para os domínios da política. A expansão desse sentimento nostálgico para os campos políticos expressa a natureza paradoxal da nostalgia moderna.
O que ocorre aqui é uma substituição do pensamento crítico por laços emocionais, onde a nostalgia acaba sendo apropriada por ideologias externas que passam a utilizar desse sentimento de forma irrefletida. Com isso, as disputas políticas passam a utilizar esse anseio por uma memória coletiva para esconder as tendências fundamentalistas de seus discursos. Assim, por de trás de um surto nostálgico, manifestado pelo senso de perda não limitado a história pessoal, há uma apropriação das ideologias políticas, que fazem o uso retórico do sentimento de perda para proporem um retorno dos valores universais como uma tentativa de restauração do passado.


“Ouvi o eco da minha voz na floresta. Não é só aquela repetição; o som segue o caminho do rio. (...). Quando você encosta num barranco, naquela procissão de canoas – aí você descobre o Brasil, descobre você mesmo, descobre tudo. TXAI é a metade de mim que existe em você, é a metade de você que existe em mim. TXAI é mais que irmão, mais que amigo. Está na hora de dizer isso para os outros.”. Milton Nascimento

O álbum TXAI (1990) do cantor e compositor Milton Nascimento pode ser resgatado hoje com um novo olhar. A sonoridade do disco traz à cena o “canto dos povos da floresta”, projeto que proporcionou ao próprio Milton viajar por diversos pontos dos estados do Acre, Rondônia e Amazônia. As gravações prezam por cantos quase guturais – se compararmos ao que nossos ouvidos foram treinados a ouvir –  de diferentes povos indígenas, como os Kayapó, Yanomami, Waiapi, entre outros. A faixa que dá nome ao álbum será brevemente analisada aqui com o intuito de, a partir da sabedoria das culturas indígenas, encontrar novas abordagens e possíveis respostas para problemas que o saber científico ocidental tem se mostrado insuficiente. Ressalto, a fim de contextualizar, a fala de Ewa Domanska na qual ela problematiza a visão antropocêntrica do conhecimento científico e reforça a necessidade, caso a teoria das ciências humanas e sociais queira, de fato, responder aos problemas contemporâneos, de estender suas reflexões sobre o passado aos seres não-humanos. Para a professora de teoria e história da historiografia, “coisas, plantas e animais não-humanos também devem ser incorporados à História como algo diferente de receptores passivos de ações humanas”. (p.17).
Na faixa “Txai” percebemos uma relação direta dos homens com as coisas que os rodeiam, sejam os ventos, os rios, a floresta, etc. Não existem limites definidos de onde termina um e de onde já é o outro. As explicações para o termo Txai valorizam comparações com os elementos como o sol, a lua, o rio e o vento, vejamos: “Lá onde tudo é e apareceu / Como a beleza que o sol te deu” ou “ Te desejar como o vento”; a primeira coincide, também, com uma compreensão Yanomami acerca da criação do mundo, explorada por Davi Kopenawa – que participa do álbum – em A Queda do Céu, a qual diz: “Eles [os Yanomami] ali foram criados e vivem sem preocupação desde o primeiro tempo. ” E mais a frente: “[As palavras Omama] são muito antigas, mas os xamãs as renovam o tempo todo. Desde sempre, elas vêm protegendo a floresta e seus habitantes. Agora é minha vez de possuí-las. Mais tarde, elas entrarão na mente de meus filhos e genros, e depois, na dos filhos e genros deles. Então será a vez deles de fazê-las novas. Isso vai continuar pelos tempos afora, para sempre”. (p. 64-65). Dessa forma, percebemos outra abordagem para explicar o início dos tempos e de compreender uma cultura. No verso “Txai, tudo se chama nuvem / Tudo se chama rio / Tudo o que vai nascer”, percebemos a complexidade do tempo, já que até o que ainda não é, o que não nasceu, se comunga no presente. O tempo não é linear, como o nosso, mas cíclico. Outro verso que mostra esta complexidade é “Txai, a tua seta viajou / Chamou o tempo e parou / Dentro de nós”. Vemos uma personificação do tempo e, ainda, algo muito distante para nós, um tempo que, naquele universo, se permite estacionar. Temos talvez, nessa seta que viaja, mas que para dentro dos homens, uma compreensão diferenciada da memória? Recordo do Txai porque ele existe também em mim?
A música ensina para o ocidente que, dentre outras coisas, a compreensão do próprio ser perpassa também o conhecimento do mundo em que se está inserido. “Todos metades, todos inteiros / Todos se chamam Txai”. Este verso é um profundo ensinamento, uma consciência do outro como parte fundamental minha, a qual escapa às teorias ocidentais, e que deveríamos trazer para nossa compreensão de mundo na busca da construção de uma relação mais sustentável, ética e responsável com “as coisas, as plantas e com os animais não-humanos”.